01/09/2000
Cassino do Quitandinha

O Palácio do Jogo nos Anos 40
JOSEMIR MEDEIROS

Quem visita hoje o Palácio Quitandinha e se impressiona com a sua arquitetura magnífica e fica encantado com o luxo de seus salões, não imagina o esplendor daquela casa quando ali funcionava o Cassino do Quitandinha, na década de 40. Construído pelo empresário mineiro Joaquim Rolla, à época proprietário da maior rede de cassinos da América Latina, o Quitandinha recebeu astros de Hollywood como Errol Flynn, Orson Welles, Lana Turner e Henry Fonda, além do staff político de Getúlio Vargas e da lendária Evita Péron. No dia 30 de maio de 1946, apenas dois anos depois de inaugurado o cassino de Petrópolis, o presidente Dutra proíbe o jogo em todo o país e começa a decadência do Quitandinha.

O historiador Afonso Henriques conta que nos primeiros anos da década de 40, a Segunda Guerra Mundial obrigava o país a racionar combustível, as despesas públicas eram contidas e o custo de vida subia sem parar. No entanto, segundo ele, 48 caminhões subiam a serra de Petrópolis, 24 horas por dia, levando areia da Praia de Copacabana, material de construção e trabalhadores. O historiador pergunta: "seria porventura a construção de alguma fortaleza, ou de alguma rodovia de caráter vital(...) ou ainda de algum aeroporto estratégico? Nada disso, era apenas o luxuosíssimo Cassino de Quitandinha, destinado ao vício e à dissipação".

Joaquim Rolla, o construtor do Cassino, era amigo de Amaral Peixoto, interventor do Estado do Rio de Janeiro e genro de Getúlio Vargas, antes de investir na construção do seu empreendimento negociou com o Governo um contrato que lhe assegurava a indenização de 120 mil contos de réis, no caso de o jogo ser proibido em território nacional. Inaugrada parcialmente no dia 12 de fevereiro de 1944 com um jantar para duas mil pessoas, a casa iria marcar época com seus grandes shows, a maioria dirigidos por Carlos Machado, reunindo artistas como Bing Crosby, Grande Otelo, Carmen Miranda e Pedro Vargas. Esses espetáculos aconteciam no Teatro Mecanizado, com três palcos giratórios e que até hoje é usado para grandes shows na cidade.

O projeto de Joaquim Rolla era tão ambicioso que, além do Cassino, o empresário mineiro projetou também um grande loteamento, com ruas largas e rede de esgotos subterrânea, em volta do Cassino, onde hoje se ergue o bairro do Quitandinha. Em volta do antigo Cassino, estão belíssimas residências, mas nos morros do bairro crescem ocupações desordenadas que se transformam em favelas.

Com a proibição do jogo, em 1946, o Quitandinha, concebido apenas para funcionar como cassino entrou em decadência. Rolla ainda tentou explorá-lo como hotel, mas em 1963 foi obrigado a vender os apartamentos a particulares e o andar térreo a uma empresa paulista que hoje utiliza os salões para congressos e convenções, além de atividades pouco condizentes com o luxo de outrora, como uma feira de venda de malhas.

Quem quiser ver de perto os lustres de cristal e bronze, o piso em mármore de Carrara, a decoração assinada por Dorothy Drape e a magnífica abóbada do Salão Mauá, pode visitar o Palácio Quitandinha de 3ª a domingo das 9h às 17h. O endereço é Av. Estados Unidos, 2.