01/09/2000
Manoel Ferreira, sanitarista petropolitano:

uma vida dedicada à saúde pública
ROGéRIO TOSTA
FOTO: ARQUIVO


Desde o início desta década, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial de Saúde vêm desenvolvendo fortes campanhas de incentivo ao aleitamento materno, como um dos meios de se combater o baixo peso em recém-nascidos e o aparecimento de várias doenças. No entanto, este tipo de preocupação já era uma constante na vida do sanitarista petropolitano Manoel José Ferreira (na foto, na esquerda, ao lado de Sabin), especialista em malária. Em maio último, profissionais de saúde de Petrópolis, ligados à saúde pública comemoraram o centenário de nascimento do sanitarista, que dá nome ao Centro de Saúde Coletiva, onde está arquivado parte de seu material de pesquisa e fotos de seu trabalho.

A exemplo de Oswaldo Cruz, o professor Maneco, como era carinhosamente chamado pelos familiares e amigos, sempre acreditou na prevenção como a melhor maneira de se evitar doenças. Este pensamento transformou-se em meta para sua vida profissional, por isso dedicou-se à erradicação de doenças como malária, tuberculose, dengue, meningite, varíola e à luta contra a mortalidade infantil. Uma de suas vitórias foi a erradicação da malária na década de 30 em todo o nordeste e em outras regiões do país. Esta conquista foi notícia nos principais jornais e revistas do país na época, como a revista Manchete.

Manoel Ferreira nasceu em Petrópolis, no dia 23 de maio de 1897 e morreu em 1982, aos 85 anos. Durante este período desenvolveu diversas funções na área da saúde a nível estadual, federal e até internacional. Devido à sua importância como sanitarista foi diretor da saúde pública do estado do Rio de Janeiro, do Serviço Nacional de Malariologia, do Instituto de Endemias Rurais e ainda assessor chefe do Ministério da Saúde.

Por causa de seu trabalho foi convidado e aceitou ser membro do Comitê Executivo da Organização Mundial de Saúde, representando o Brasil na VIII Reunião do Conselho Diretor da Organização Pan-americana, em Washington; foi relator do tema Saúde, nas Nações Unidas, em Genebra, e presidente do Comitê Misto W.H.O e Unicef. Por ser um especialista em malária foi convidado pela Organização Mundial de Saúde para atuar em vários países da África onde contribuiu para a erradicação da malária e de outras doenças.

Mas, com certeza, se hoje estivesse vivo, o professor Manoel José Ferreira não teria muitos motivos para se alegrar, a não ser pela certeza do dever cumprido, pois todo o seu trabalho e de outros sanitaristas foi esquecido, já que o país ainda luta contra as mesmas doenças que levaram o professor Maneco a se dedicar à saúde pública.

Manoel Ferreira atuou também na área de pediatria, principalmente nos aspectos preventivos que levam à melhoria da qualidade de vida, como imunização, controle de peso, aleitamento e desenvolvimento de lactentes. O Ministério da Saúde foi obrigado a criar um programa específico para que as crianças pudessem ser respeitadas nos seus direitos mínimos, como o direito à vida.

O reconhecimento de seu trabalho não se dava somente pelos convites que recebia para participar de conferências no Brasil e no exterior, mas também pelos laços de amizade que mantinha com personalidades da época como Albert Sabin, Amauri Medeiros e Carlos Chagas.

Gabriela Ferreira, filha do professor Maneco, contou que seu pai, até os últimos anos de sua vida, demonstrava um grande amor por sua mãe, Maria Ruth, e pelos filhos. "papai, quando não tomava o café junto com mamãe, fazia questão de comprar um botão de rosa e deixá-lo sobre a mesa", contou.

O seu hobby era brincar com trens, e gostava de fazer isto com os filhos e depois com os netos, que recebiam do avô uma atenção toda especial. Além disto, o sanitarista fazia questão de construir brinquedos para os três filhos, numa pequena oficina que tinha nos fundos da casa. Outra mania do sanitarista era mexer em carros e desmontar e montar aparelhos domésticos.

- Meu pai levou a vida muito bem e espiritualmente nunca envelheceu. Sempre gostou do que fazia, e uma prova disto foi que, aos 85 anos, na véspera de sua morte, deu uma aula na Faculdade Fluminense de Medicina, em Niterói, onde foi aclamado de pé pelos alunos e demais professores, concluiu Gabriela Ferreira.