01/09/2000
A história do verão em Petrópolis

No início do século a aristocracia carioca subia a Serra para fugir das doenças tropicais do Rio de Janeiro.
JOSEMIR MEDEIROS

Depois da barca, pegava-se um trem que subia a serra de Petrópolis, onde a elite desfrutava o verão, longe das epidemias.

O crescimento desordenado do Rio de Janeiro no final do século passado transformou a capital federal numa terra insalubre. Febre amarela, cólera, varíola e peste bubônica eram as mazelas que atacavam o Rio. Quando chegava o verão, os ricos abandonavam a capital federal. O movimento nas ruas do Ouvidor e Gonçalves Dias diminuía, os teatros fechavam as portas e quem tinha dinheiro fugia das doenças tropicais subindo a serra até Petrópolis, de onde, em chácaras tranqüilas, cercados pelas montanhas, podiam avistar o mar do Rio, de longe, com toda segurança, da mesma forma como faziam os turistas estrangeiros que achavam a cidade linda, vista do convés de um navio.

Estava criada a tradição de veraneios na Serra que, na verdade, havia começado de fato em 1830 quando a princesa D. Paula adoeceu gravemente e D. Pedro I comprou a fazenda do Córrego Seco, que, mais tarde, em 1843, iria se transformar na cidade de Petrópolis. No final do século, a "Cidade de Pedro" tornou-se uma mini corte imperial, esbanjando luxo e elegância. Em 1889, enquanto desfrutava do seu palácio de verão na Serra, D. Pedro II recebeu a notícia da proclamação da República e partiu para o exílio. Com a mudança do regime e o agravamento dos problemas sanitários no Rio, o presidente da República e seus ministros, a exemplo do Imperador, subiam para Petrópolis deixando o Rio para os ratos, os insetos e, é claro, para os pobres.

Para chegar a Petrópolis, o meio mais fácil era tomar uma barca até o porto de Mauá, no fundo da baía de Guanabara. De lá tomava-se um trem para Petrópolis. Na cidade, durante o verão vivia a nata da aristocracia brasileira como o Marques de Paraná, o Visconde do Bom Retiro, o Barão de Mauá, o Barão do Rio Branco, Campos Salles e o Visconde de Macaé.

Em Petrópolis, em meio aos casarões e às chácaras, havia diversão para os jovens e algumas das atrações culturais da capital federal, aproveitavam o verão e também subiam a serra. havia ainda um velódromo, ringues de patinação e muitos bailes nas mansões. Com o passar do tempo, o Rio resolveu seus problemas sanitários e os verões na Serra foram perdendo o glamour. Hoje, Petrópolis está tão perto do Rio que muitos cariocas escolheram a cidade para moradia e, ao invés de viver apenas os verões na Serra, passam todas as noites cercados pelas montanhas vendo, ao longe as luzes da "Cidade Maravilhosa".