08/09/2000
Comunidade carente do Alto Independência mostra como é possível superar as dificuldades

ANDREIA CONSTâNCIO

Na década de 70, o bairro Alto Independência se tornou o paraíso dos veranistas e de pessoas do high society, que construíram grandes mansões no lugar. O local calmo, cercado por árvores da Mata Atlântica e ao mesmo tempo próximo ao Centro, serviu de moradia para empresários, generais e pessoas ligadas aos governos municipal e estadual.

Os anos passaram e o "Baixo Independência", como é conhecida a entrada do bairro - uma forma encontrada pelos moradores para demonstrar as contradições sociais do lugar - continua mantendo essa característica, mas o resto do bairro , o "Alto", quanta diferença...

No "Alto", é possível encontrar casas simples, um comércio variado, e muitos problemas sociais: pobreza, falta de infra-estrutura, falta de segurança. O bairro é considerado pela polícia como um dos maiores pontos de tráfico de drogas da cidade. Mas é lá também que a gente pode encontrar um grupo de pessoas que resolveram se unir para tentar mudar esse quadro. Do grupo fazem parte ex-seminaristas, professores, moradores do bairro, que descobriram na educação uma forma de minimizar os poblemas sociais.

Educação e trabalho - O primeiro passo aconteceu com a criação do Centro Educacional Comunidade São José, em 1986. O objetivo era garantir a educação das crianças do lugar e a idéia logo apresentou resultados. Hoje são cerca de 130 crianças estudando na pequena escola, que vai do CA à 4 série.

Foi do Centro que surgiu as bases da Cooperativa Mista de Produção Industrial, Trabalho e Consumo de Petrópolis, em 1990, que emprega e ensina cerca de 70 pessoas, nos setores de marcenaria, serralheria, metalurgia, confecção e, mais recentemente, na produção de pizzas. " Todo o material produzido aqui é vendido e a verba revertida para o pagamento de salários e compra de material. Na realidade a cooperativa faz parte do Projeto Comunidade, que é uma parceria Bonn/Petrópolis. O objetivo da cooperativa é aumentar a renda da comunidade, desenvolvendo um trabalho sustentável dentro do próprio bairro", explicou Alcindo Gonçalves, um dos mentores da "Coop", como eles costumam chamar a cooperativa.

Para se ter um exemplo da importância do trabalho da cooperativa, muitas peças produzidas pela pequena metalúrgica são vendidas para a Petrobrás e para a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). "Nós adquirimos a metalúrgica, que tem o nome fantasia de Peças Anco, que já eram conhecidas e respeitadas no mercado. Continuar nesse mesmo mercado, mantendo boa parte dos clientes da antiga metalúrgica, sendo uma cooperativa popular ,nos dá a certeza que estamos no caminho certo", frisou Alcindo.

O setor de confecção e artesanato da Cooperativa participa de uma feira quinzenal na Barra da Tijuca (RJ) e tenta entrar no disputado mercado de confecções. "Temos três grupos de costureiras, mas o mercado é pequeno e dependendo do mês o que entra é só para pagar os salários", explicou Maria do Carmo da Costa, presidente da cooperativa há três anos. Além disso, na marcenaria podem ser encontrados móveis de todos os estilos, a preços bem mais em conta.

O trabalho da cooperativa e de toda a comunidade do Alto Independência já serviu de exemplo para projetos semelhantes em outros bairros do município e para cidades vizinhas. Sem o "apadrinhamento" político, mas com muito trabalho e suor, a comunidade vem dando várias demonstrações que é possível superar as adversidades e construir uma vida melhor.