08/09/2000
Quitandinha à espera da volta do giro das roletas

Apesar da venda dos 426 apartamentos do hotel, salões do antigo cassino podem voltar a funcionar em três meses.
JOSEMIR MEDEIROS

Construído em 1944 para ser o maior cassino da América Latina, o Quitandinha guarda até hoje o charme e o glamour dos anos dourados. Em seus imensos salões com pisos de mármore de Carrara, grandes lustres de Cristal e decoração assinada pela norte-americana Dorothy Drape, reina hoje o silêncio, cortado apenas pelas exclamações dos visitantes que pagam R$ 2,00 para visitar e fotografar o antigo palácio do jogo. No entanto, a legalização dos cassinos aprovada pelas comissões de Constituição e Justiça e Assuntos Econômicos do Senado já fez nascer um clima de euforia no antigo hotel-cassino de Petrópolis. O empresário Adelino Boralli, do grupo que controla o atual Palácio Quitandinha afirma que tem condições de montar um cassino completo em apenas três meses e, para tanto, está disposto a investir na construção de um apart-hotel no terreno ao lado do antigo Hotel Quitandinha.

O Quitandinha foi construído por Joaquim Rolla para ser o maior cassino da América Latina. Inaugurado em 1944, o palácio de 6 andares em estilo normando, com 426 apartamentos e ocupando uma área de 50.000 m2 só funcionou durante 2 anos, porque em 1946 o presidente Dutra proibiu o jogo no Brasil. No seu auge, o Quitandinha chegou a empregar 1.500 pessoas e abrigou em seus salões os figurões da República, artistas de renome nacional e internacional e a nata da elite nacional. Hoje, na avaliação de Aldyr Cony dos Santos, que administra o palácio há vários anos, a volta do jogo não proporcionaria tantos empregos como na década de 40, porque o jogo também se modernizou.

Além dos salões de jogos e dos apartamentos para os hóspedes, o Quitandinha possui ainda um grande teatro mecanizado e uma boate onde se apresentaram artistas como Grande Otelo, Oscarito, Emilinha Borba, Marlene e a vedete Virgínia Lane que, embora também sonhe com a montagem de um cassino em sua mansão de Pirai, no interior do estado, admite que ficaria igualmente feliz se o Quitandinha fosse o local escolhido para abrigar um cassino no Estado do Rio.

Indenização - Joaquim Rolla, o empresário que construiu o Quitandinha era muito bem relacionado no governo e, com isso conseguiu proteger-se da proibição do jogo. Amigo de Amaral Peixoto, o interventor do Rio de Janeiro que era genro do presidente Getúlio Vargas, Joaquim Rolla negociou com o governo um contrato que lhe garantia uma indenização de 120 mil contos de réis, na eventualidade do jogo ser proibido em território nacional, o que, de fato, viria a acontecer dois anos depois da noite de 12 de fevereiro de 1944, quando o Cassino do Quitandinha foi inaugurado com um banquete para duas mil pessoas, no salão Marcondes. Além do banquete havia ainda o show Vogue 44, com Grande Otelo, Yma Sumac, Alvarenga e Ranchinho. Duas orquestras, de Carlos Machado e do maestro Gaó, tocariam durante o jantar e o baile. Devido à grande quantidade de convidados, o jantar começou a ser servido às 23h30 e o show às 2h15 da manhã, quando pouca gente podia assisti-lo não só por causa do atraso, mas também pela grande quantidade de bebida ingerida.