16/09/2000
Medo e indignação

Seqüestro de ônibus no Rio de Janeiro acirra o clima de insegurança nas grandes cidades e expõe o despreparo da polícia carioca.
JOSEMIR MEDEIROS

O desfecho trágico do seqüestro de um ônibus da linha 174, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, na última segunda-feira, 12 de junho, expôs, de uma só vez dois sentimentos cada vez mais freqüentes no dia-a-dia dos moradores de grandes e médias cidades brasileiras: o medo da violência e a indignação quanto ao despreparo dos órgãos encarregados de promover a segurança dos cidadãos.

Depois de quatro horas e meia de tensão, acompanhada ao vivo pela televisão, o seqüestrador Sandro do Nascimento desce do ônibus usando como escudo a refém Geisa Firmo Gonçalves. Quando tudo parece encaminhar-se para um desfecho satisfatório, com a prisão do seqüestrador e a libertação da refém, o soldado do Batalhão de Operações Especiais da PM, Marcelo Santos aproxima-se do seqüestrador, com uma submetralhadora HK-MP5 e dispara. A refém é ferida gravemente e o seqüestrador é levado com vida para o camburão. Horas depois, a caminho do hospital, ambos, vítima e algoz, estão mortos.

Somente no dia seguinte, os jornais iriam revelar o lado mais surpreendente e assustador dessa tragédia. A refém morreu atingida por quatro tiros, um pelo menos proveniente da submetralhadora do policial que deveria ter tentado salvar sua vida, e o seqüestrador não foi atingido por um tiro sequer e veio a morrer por asfixia mecânica, provavelmente depois de ter sido enforcado no interior do camburão que o conduzia ao hospital. Além disso, o soldado Marcelo Santos, primeiro de sua turma no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, no ano de 1997, há 12 meses não praticava tiro e sequer participava de treinamentos para situações de conflito.

Repercussão - O seqüestro do ônibus da linha 174 ganhou destaque no noticiário nacional e internacional, além da cobertura ao vivo feita pelas emissoras de televisão. O presidente Fernando Henrique Cardoso, fez um pronunciamento criticando a atuação da polícia carioca e no dia seguinte convocou uma reunião com a equipe de ministros que está elaborando o Plano Nacional de Segurança Pública.

O governador Anthony Garotinho, no dia do seqüestro, elogiou a atuação da PM que, segundo ele, teria agido corretamente, de forma enérgica e com prudência para evitar uma tragédia. Porém, no dia seguinte, mudou de opinião, exonerou o comandante da Polícia Militar, coronel Sérgio da Cruz, determinou a prisão dos cinco policiais suspeitos de terem assassinado o seqüestrador e declarou que o desfecho da ação foi desastroso e a polícia teve um desempenho ridículo.

No meio de toda essa discussão sobre responsabilidades e promessas de apurações e aberturas de inquérito está a população amedrontada, que é obrigada a conviver com 776 assaltos a ônibus, só no mês de abril desse ano, segundo estatísticas da Secretaria de Segurança Pública, está à mercê de bandidos cada vez mais ousados e só pode contar com uma polícia desaparelhada e despreparada para lidar com situações extremas e capaz de tentar, felizmente sem sucesso, pressionar médicos e funcionários do Hospital Souza Aguiar a omitir o laudo da morte do seqüestrador, conforme divulgou o jornal “O Globo", em sua edição de 14 de junho de 2000.

Como reflexão para essa tragédia urbana acompanhada ao vivo pela televisão e que repercutiu em todo o mundo, fica a triste constatação de que a violência no Brasil chegou a um nível perigoso de banalização que anestesia toda a sociedade através do medo. Além disso, a indignação quanto ao despreparo ou a truculência da polícia não dura mais do que os dias em que as notícias merecem destaque na mídia.

No rol dos crimes modernos trazidos pela informática encontram-se ainda o desvio de dinheiro através dos home-banking, as compras com cartões de crédito clonados ou falsificados e a divulgação de pornografia infantil. Com o aumento dos prejuízos causados por esses crimes eletrônicos, medidas vem sendo tomadas para coibir a sua prática, abrindo inclusive campo de trabalho para os chamados hackers do bem, como que auxilia a polícia carioca a desbaratar uma rede de pedófilos na Internet.