16/09/2000
Tradição ferroviária do município é esquecida

RICARDO GOOTHUZEM

Apesar das ligações históricas com o desenvolvimento do transporte ferroviário no país, Petrópolis guarda poucos vestígios de um meio de transporte corriqueiro para os petropolitanos desde o final do século XIX até 1964. Além da locomotiva preservada no Museu Imperial e das construções que ainda resistem, pouco restou da linha que vinha de Magé e cortava toda a cidade em direção a Três Rios.

Um trabalho de preservação pode estar começando a partir da constituição do Núcleo de Estudos Ferroviários da UCP (Nuclefer), idéia que surgiu a partir de um convênio entre a instituição e dois membros da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), o analista de sistemas do BNDES Antonio Pastori e o ferroviário Francisco Cavalari. Os dois resolveram adquirir antigos vagões e outros apetrechos para instalar um museu na área do ginásio da universidade, no Bingen. Pelos estudos feitos pela Associação, inclusive, jogam água na fervura dos projetos de retorno da linha férrea que vinha de Magé para Petrópolis, subindo pela Serra Velha. “A área da antiga ferrovia foi invadida e, além disso, não existem mais no país equipamentos como as cremalheiras, o trilho central que permitia a subida da serra”, informa Pastori. Já se cogitou em recuperar um outro trecho, que ia da estação da Guia de Pacobaíba até a Raiz da Serra, mas também se trata de algo inviável. Além da destruição e roubo de dormentes e trilhos, a região atualmente tem muito pouco interesse turístico.

A pesquisa feita pela dupla revelou um detalhe curioso a respeito do desinteresse das autoridades pela preservação do patrimônio ferroviário do país. Na década de 70, membros da ABPF procuraram a prefeitura para propor a instalação de um ramal ferroviário que iria de Cascatinha até Pedro do Rio e possivelmente até Areal. A Rede Ferroviária Federal já havia se comprometido a fornecer o material necessário. Como a prefeitura não se definiu, a ABPF transferiu o projeto para Campinas (SP), que até hoje mantém um ramal ferroviário turístico até Jaguariúna, num percurso de 17 quilômetros..

Com o interesse demonstrado pela UCP, o que se espera é estimular estudos sobre a história do transporte ferroviário no país, que foi preterido em favor das rodovias a partir da década de 50. “Nos países desenvolvidos 80% do transporte de carga é feito via ferrovias, enquanto que no Brasil esse percentual fica em apenas 20%”, afirma Francisco Cavalari. Além dos estudos, a proposta é recuperar vagões - um dos quais já pode ser visto no campus da UCP do Bingen - para sediar museus ou cafés culturais, voltados para eventos culturais ou como ponto de encontro.

Sindicato - A primeira estrada de ferro do país foi a Estrada de Ferro Mauá, construída por Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, em 1854, ligando a estação da Guia de Pacobaíba (para onde chegavam os viajantes que vinham do Rio de barco) até a Raiz da Serra da Estrela. De lá, os viajantes, como o Imperador Dom Pedro II, em suas temporadas em Petrópolis, subiam a Serra Velha de carruagem. Em 1883, a linha foi estendida até Petrópolis - a estação ficava exatamente onde hoje é a Rodoviária, no Centro da cidade.

A expansão da cultura do café deu impulso a novas expansões da ferrovia, que passou a cortar todo o município, com estações em Cascatinha, Nogueira, Pedro do Rio e as oficinas do Alto da Serra, localizadas na área hoje ocupava por um conjunto habitacional. Os trabalhadores do setor tornaram-se altamentes especializados com com elevado poder de pressão - uma greve no trecho de Petrópolis acabaria por interromper toda a malha rodoviária da região.

A Rede Ferroviária Federal (RFFSA) foi formada em 1957, a partir da consolidação de ferrovias regionais. Porém, a cultura do café perdeu importância na região e o trecho local tornou-se deficitário. Assim, a nova empresa acabou por desativar o trecho petropolitano em 1964, dando início ao desaparecimento dessa parcela da história petropolitana. Que, por sinal, é mais valorizada fora do país: a estação ferroviária do centro da cidade é capa de um raro livro sobre as ferrovias a vapor do Brasil, Up Over the Hill, da coleção The Brasilian Steam Album, editada nos EUA sobre as ferrovias brasileiras, cuja edição encontra-se esgotada e é vendida a peso de ouro. As fotos são de autoria do norte-americano Charles Small.

Além das estações de Cascatinha, hoje um prédio abandonado, e a de Pedro do Rio, que abriga uma pizzaria, há ainda outro prédio da época da estrada de ferro. A antiga cabine de comutação de chaves de manobra das linhas atualmente funciona como administração da feira-livre municipal. Também restam outros traços, como o caminho que liga o Centro da cidade ao bairro Floresta, passando por um túnel. Os terrenos da RFFSA situados ao longo da antiga linha férrea também costumam provocar alguns conflitos, especialmente na região de Samambaia.